Um dos maiores mitos sobre HPV é que ele “dá verruga”. Dá, mas só numa parte dos casos.
Na maioria das vezes, a infecção é silenciosa. O vírus entra nas células da pele genital, não forma verruga, não dói, não coça, e a pessoa segue a vida sem saber que teve contato com ele. Muitas vezes o próprio corpo resolve, sem ninguém nunca descobrir.
Eu sou o Dr. Tiago Guirro, urologista em São Paulo, e nesse post você vai entender o que o HPV faz quando não dá sinal, quando ele volta a aparecer, quem precisa investigar e quem pode ficar tranquilo.

Por que o HPV costuma ser silencioso
O HPV infecta a pele e as mucosas da região genital, e na maior parte das vezes o sistema imune dá conta dele. Segundo o CDC, o centro de controle de doenças dos Estados Unidos, cerca de 9 em cada 10 infecções desaparecem sozinhas em até 2 anos, sem causar problema.
Enquanto isso não acontece, o vírus pode se comportar de três jeitos:
É a verruga que você vê, o condiloma. Apesar de ser a imagem que todo mundo associa ao HPV, é a minoria dos casos.
O vírus está ativo nas células, mas a lesão é pequena demais pro olho. Aparece com ácido acético e lente de aumento, na peniscopia. Mesmo invisível, pode transmitir.
O vírus fica quieto dentro das células, sem lesão e sem sintoma. Nenhum exame de rotina enxerga essa fase, e ela pode durar anos.
A maioria dos homens que têm contato com o HPV fica nos padrões 2 e 3, sem nenhum sintoma. E a ciência ainda não sabe dizer se, quando o vírus “some”, ele foi eliminado de vez ou ficou latente numa quantidade que nenhum exame detecta.
Por que não dá pra saber quando você pegou
Uma pergunta que ouço com frequência, quase sempre em voz baixa: “Doutor, se apareceu agora, foi agora que eu peguei?”
Não necessariamente. Como o vírus pode ficar meses ou anos sem dar sinal, a verruga pode aparecer muito tempo depois do contato. O próprio CDC reconhece que, por causa disso, na maioria das vezes não dá pra saber quando, nem de quem, a infecção veio.
Quando o HPV “acorda”
Não dá pra prever se, nem quando, uma infecção quieta vai virar lesão. O que se sabe é que algumas situações favorecem:
- Imunidade comprometida. HIV sem controle, transplante, uso prolongado de corticoide ou imunossupressor, quimioterapia. É o fator que mais pesa.
- Cigarro. Está associado a infecção que persiste por mais tempo e a mais risco de câncer de pênis.
- Fimose e inflamação de repetição na glande. Pele irritada e úmida favorece a persistência do vírus.
Em muitos casos, nenhum gatilho é identificado. Isso não é motivo de pânico. Quem sabe que o HPV pode estar quieto fica atento aos sinais e pega a lesão ainda pequena, quando o tratamento é mais simples.
Uma minoria das infecções por tipos de alto risco persiste por anos e pode levar a lesões pré-cancerosas no pênis, no ânus ou na garganta. No homem, esses quadros são raros, e é justamente pra pegá-los cedo que a avaliação certa, na hora certa, faz diferença.
- Verruga ou bolinha nova na região genital, mesmo pequena.
- Mancha ou placa esbranquiçada, avermelhada ou escura que não some.
- Ferida que não cicatriza na glande, no prepúcio ou em volta.
Quem deveria investigar
Não é todo mundo. Não faz sentido rastrear todos os homens. Mas a investigação vale nestes casos:
Papanicolau alterado, colposcopia ou biópsia mostrando lesão por HPV. É o encaminhamento mais comum que recebo de ginecologistas.
Bolinha, mancha ou área diferente que você não sabe o que é. Um exame tira a dúvida que meses de busca na internet não tiram.
HIV, transplante, uso contínuo de imunossupressor. O HPV tende a dar lesões mais atípicas e persistentes, e o acompanhamento periódico se justifica. Em quem vive com HIV, a avaliação da região anal também pode entrar, junto com o infectologista.
Mesmo tratada, vale acompanhar até a alta pra pegar recidiva cedo. Veja por que o HPV volta.
No adulto, o exame antes da cirurgia ajuda a excluir lesão escondida sob o prepúcio.
- Check-up em homem sem sintoma e sem fator de risco. Não tem benefício comprovado.
- Parceira com Papanicolau normal e relação estável. Sem indicação.
- “Pra ter certeza” antes de um relacionamento novo. Exame normal não garante ausência do vírus.
- Como check-up de IST. Peniscopia não avalia HIV, sífilis nem hepatites; pra isso existem exames de sangue.
Exame “por garantia” em homem saudável gera falso positivo (área branca que não é HPV), ansiedade e biópsia desnecessária.
Como o urologista investiga
Diferente do Papanicolau na mulher, não existe exame preventivo de HPV padronizado pro homem. Quando há indicação, o caminho no consultório é este:
História, parceria, lesões anteriores. Depois, inspeção da região genital com lente de aumento.
Ácido acético a 5% na pele e, depois de alguns minutos, exame com lente. As áreas alteradas ficam brancas.
Lesão que o exame não define vai pra análise, na mesma consulta.
Lesão de HPV: no meu consultório, cauterizo com jato de plasma na mesma consulta, na maioria dos casos. Nada encontrado: alta com orientação.
Detalhei indicações, preparo e falso positivo em peniscopia: quando fazer, e comparei os métodos de tratamento em cauterização de HPV: ácido, crio, bisturi elétrico ou plasma.
E os testes de DNA do HPV, como PCR e captura híbrida? Eles foram validados pro rastreamento no colo do útero. No homem sem lesão, não existe teste aprovado pra uso de rotina, e um resultado positivo não mudaria a conduta: não há tratamento pro vírus em si, só pras lesões que ele causa. Ficam reservados a situações muito específicas.

A vacina vale mesmo pra quem já tem HPV
Aqui está uma das partes mais importantes: a vacina nonavalente é útil mesmo em quem já teve contato com algum tipo de HPV.
Ela cobre 9 tipos, e é raro alguém ter tido contato com todos. Então ela protege você dos que ainda não pegou. A imunidade que a vacina gera também é mais forte que a deixada pela infecção natural, o que ajuda contra reinfecção. E há estudos sugerindo menos recidiva em quem já teve verruga e completa o esquema.
O que ela não faz é tratar o vírus que já está aí. No SUS, a vacina é oferecida principalmente pra meninos e meninas de 9 a 14 anos e pra alguns grupos, como imunossuprimidos. Pro adulto fora desses grupos, o caminho é a rede privada, com indicação bem estabelecida até os 45 anos. Expliquei quem se beneficia mais em vacina HPV em adulto: ainda vale a pena?
Veja a explicação no vídeo
Quando procurar um urologista
Lesão genital nova, parceira com Papanicolau alterado, verruga que já voltou, imunidade baixa ou uma dúvida que não sai da cabeça: vale a consulta. Exame clínico e, quando indicada, peniscopia costumam responder tudo numa visita só.
Perguntas Frequentes
Posso transmitir HPV sem ter sintoma?
Sim. Mesmo sem verruga visível, a infecção subclínica pode passar o vírus pelo contato de pele e mucosa. A camisinha reduz o risco, mas não elimina, porque o contato acontece também em áreas que ela não cobre.
HPV que aparece num relacionamento longo significa traição?
Não necessariamente. O HPV pode ficar meses ou anos sem dar sinal, e a lesão pode aparecer muito depois do contato, em você ou na outra pessoa. Na maioria dos casos, não dá pra saber quando nem de quem a infecção veio.
Existe exame de sangue pra HPV?
Não existe exame de sangue de uso clínico pra detectar HPV. A sorologia é usada só em pesquisa. No homem, a avaliação é feita pelo exame da pele e das mucosas, com peniscopia e biópsia quando indicadas.
Fiz peniscopia e deu normal. Quer dizer que não tenho HPV?
Quer dizer que não havia lesão, visível ou subclínica, naquele momento. O exame não detecta o vírus em fase latente e não protege de uma infecção futura. A proteção mais duradoura vem da vacina, junto com a camisinha.
Peniscopia dói?
Não. É um exame de consultório, sem anestesia. O ácido acético pode arder de leve por alguns segundos. Do preparo ao fim, leva de 15 a 25 minutos.
Preciso me preocupar com HPV oral?
Vale atenção, principalmente ao HPV 16, o tipo mais ligado ao câncer de orofaringe. Não existe teste de rotina pra HPV oral. O que ajuda é a vacina e procurar um otorrino ou dentista se aparecer ferida na boca que não cicatriza, rouquidão ou dor pra engolir que não passa, ou caroço no pescoço.

Ficou com dúvida sobre o seu caso?
Se você se encaixa em uma das situações acima, a consulta inclui o exame e, se houver lesão, a cauterização na mesma visita, na maioria dos casos. Se a lesão já está visível, veja como é a consulta em verruga no pênis: cauterização sem corte. Atendo na TRIUM Clinic, na Bela Vista, em São Paulo.
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Sobre o autor. Dr. Tiago Guirro é urologista (CRM-SP 158.121, RQE 79.409), formado e residente em Urologia pela Santa Casa de São Paulo, membro da Sociedade Brasileira de Urologia e do corpo clínico do Hospital Albert Einstein. Fundador da TRIUM Clinic, em São Paulo, e criador do canal “Dr. Tiago Guirro, Urologia e Saúde”. Este artigo informa e não substitui a consulta; resultados variam de pessoa pra pessoa. Atualizado em 6 de outubro de 2026.