“Doutor, qual é o melhor jeito de cauterizar?” É a pergunta que eu mais ouço de quem chega ao consultório com uma verruga genital. E a resposta honesta é: depende do que você quer evitar. Marca, dor, número de sessões e chance de a lesão voltar mudam de um método pro outro.
Eu sou o Dr. Tiago Guirro, urologista em São Paulo, e cauterizo lesões de HPV toda semana. Neste artigo eu explico os quatro métodos que existem, como é a sessão, o que esperar da recuperação e por que cauterizar é só o primeiro passo do tratamento.
O que a cauterização faz (e o que ela não faz)
Cauterizar é destruir a lesão visível. A verruga é a parte do HPV que aparece na pele. O vírus, porém, fica nas células em volta, em pontos que o olho não enxerga. Por isso a cauterização resolve a verruga de hoje, e não resolve sozinha o HPV.
Isso importa porque muita gente compara métodos perguntando “qual não deixa voltar”. Nenhum deles impede a recidiva por conta própria. O que muda entre eles é o que você sente, a marca que fica e quantas vezes precisa repetir. A chance de voltar depende do acompanhamento depois, e eu volto nisso no fim.
Os quatro métodos de cauterização de HPV
A eficácia abaixo é a taxa de desaparecimento da lesão tratada, segundo a diretriz europeia de verrugas anogenitais (Lacey e colaboradores, 2013) e as diretrizes do CDC de 2021.
Como é. Gotas de ácido sobre a lesão, em sessões semanais.
Marca. Deixa marca com frequência: o ácido escorre e queima a pele em volta.
Dor. Arde na hora e por algumas horas.
Como é. Congela a lesão com spray ou haste, em sessões repetidas.
Marca. Pode clarear a pele no ponto tratado.
Dor. Queimação forte por horas; bolha nos dias seguintes.
Como é. Corrente elétrica queima a lesão, com anestesia local, em uma sessão.
Marca. Pode deixar cicatriz pequena, porque atinge a pele em volta.
Dor. Pouca, com anestesia. Cicatriza em 1 a 2 semanas.
Como é. Energia concentrada na ponta de uma caneta remove só a lesão, com anestesia local, em uma sessão.
Marca. Mínima: a precisão poupa a pele sadia em volta.
Dor. Calor leve. Sem corte, sem sangramento.
Em qualquer método, lesões maiores que 1 cm costumam deixar cicatrizes maiores.
Ácido: quando ainda faz sentido
O ATA é barato e não precisa de anestesia, por isso é comum em serviços públicos e em consultórios sem equipamento. O problema é o controle: o ácido não escolhe onde parar. Acidentes com queimadura da pele em volta são frequentes, e são as marcas que eu mais vejo em quem chega de outro serviço. Funciona melhor em lesões pequenas e poucas.
Crioterapia: eficaz, mas exige repetição
O nitrogênio congela e destrói a lesão. Funciona bem, mas quase sempre precisa de duas a quatro sessões, com bolha e dor entre elas, e pode deixar a pele mais clara no local. É uma boa opção quando não há como fazer anestesia local.
Bisturi elétrico: resolve em uma sessão
Com anestesia local, a corrente elétrica queima a lesão de uma vez. É o método mais usado por urologistas e tem eficácia alta. A limitação é a margem: o calor se espalha pela pele em volta, e em lesões da glande ou do prepúcio isso pode virar cicatriz.
Jato de plasma: o que eu uso no consultório
O plasma é da mesma família do laser. A energia sai concentrada na ponta de uma caneta e atinge um ponto de milímetros. A lesão sai, a pele sadia em volta fica. Na prática isso significa três coisas: dá pra cauterizar na mesma consulta em que eu examino, o paciente sai sem curativo grande e a cicatriz costuma ser mínima. A eficácia é a mesma do bisturi elétrico; a diferença está na marca e no conforto.
Como é a sessão de cauterização com jato de plasma
- Peniscopia antes. Com uma lente de aumento e ácido acético eu procuro lesões que o olho não vê. Na maioria dos casos, a verruga que o paciente notou não é a única. Cauterizar só a que aparece é a forma mais comum de “voltar em três meses”.
- Anestesia local. Uma picada pequena na base da lesão. Depois disso você não sente dor, só um calor leve.
- Cauterização. De 15 a 30 minutos, dependendo do número de lesões. Sem corte e sem sangramento. Se forem muitas lesões, marco uma sessão só pra isso.
- Saída. Curativo simples. Você volta pro trabalho no mesmo dia. Quando há dúvida se a lesão é mesmo HPV, eu retiro e mando pra biópsia na mesma consulta.
Recuperação: o que esperar nos dias seguintes
- Nos primeiros 2 a 3 dias a área fica avermelhada e pode formar uma casquinha fina. Isso é esperado.
- Higiene com água e sabão neutro, sem esfregar. Pomada só se eu prescrever.
- Sem relação sexual por 7 a 10 dias, até cicatrizar. Depois disso, com preservativo até a alta.
- Cicatrização completa em 1 a 2 semanas. Dor forte, pus ou febre não são esperados: se acontecer, me avise.
Por que cauterizar não é tratar o HPV
Em qualquer um dos quatro métodos, uma parte dos pacientes vê a verruga voltar, quase sempre nos primeiros três meses. Não é falha da cauterização. É o que acontece quando o tratamento termina no dia em que a lesão saiu.
Por isso eu trabalho com um protocolo em etapas: peniscopia antes de cauterizar, cauterização com jato de plasma do que aparece, visitas de acompanhamento com nova peniscopia e cauterização de lesões novas se houver, medicação de apoio quando há indicação, e alta. Você sabe desde a primeira consulta em que etapa está e o que vem depois. Escrevi em detalhe sobre isso no artigo HPV recidivante no homem: por que volta e como quebrar o ciclo.
Perguntas frequentes sobre cauterização de HPV
Cauterização de HPV dói?
Com anestesia local, não. Você sente a picada da anestesia e depois um calor leve. Ácido e crioterapia, que costumam ser feitos sem anestesia, ardem ou queimam por algumas horas.
Quantas sessões são necessárias?
Bisturi elétrico e jato de plasma resolvem a lesão em uma sessão. Ácido e crioterapia costumam precisar de duas a quatro. Lesões novas que apareçam depois são tratadas nas visitas de acompanhamento.
Fica cicatriz?
Depende do método e do tamanho da lesão. Ácido e bisturi elétrico atingem a pele em volta e podem marcar. O jato de plasma poupa a pele sadia e costuma deixar marca mínima. Lesões maiores que 1 cm deixam cicatriz maior em qualquer método.
Quanto tempo leva pra cicatrizar?
De 1 a 2 semanas. Sem relação sexual por 7 a 10 dias.
Posso trabalhar depois?
Sim, no mesmo dia. O procedimento é no consultório, com anestesia local, sem internação.
Já cauterizei e voltou. Adianta de novo?
Adianta, desde que o tratamento não pare de novo na primeira sessão. Voltar quase sempre significa que sobrou lesão que o olho não viu ou que não houve acompanhamento. É o caso mais comum no meu consultório.
E se a bolinha não for HPV?
Nem toda bolinha no pênis é HPV. Pode ser glândula normal, pérola peniana ou molusco. A peniscopia responde na hora. Quando há dúvida, retiro e mando pra biópsia na mesma consulta. Veja quando a peniscopia é indicada.
Cauterizar elimina o vírus?
Não. A cauterização elimina a lesão. O vírus é controlado pela sua imunidade ao longo dos meses seguintes, e o acompanhamento serve pra tratar o que aparecer nesse período até a alta.
Quer tirar a verruga esta semana?
Se você já viu a lesão e quer resolver, a página verruga no pênis: cauterização sem corte explica como é a consulta e como agendar. Atendo na Bela Vista, em São Paulo, em frente ao Hospital Sírio-Libanês. Na maioria dos casos a cauterização é feita na mesma consulta.
Se ainda está na dúvida sobre o método, baixe o guia de 2 páginas com os quatro métodos comparados.
Referências
- Lacey CJN, Woodhall SC, Wikstrom A, Ross J. 2012 European guideline for the management of anogenital warts. J Eur Acad Dermatol Venereol. 2013;27(3):e263-70.
- Workowski KA, Bachmann LH, et al. Sexually Transmitted Infections Treatment Guidelines, 2021. MMWR Recomm Rep. 2021;70(4):1-187. Seção “Anogenital warts”.
- Instituto Nacional de Câncer (INCA). HPV e câncer: perguntas mais frequentes. Ministério da Saúde.
Sobre o autor. Dr. Tiago Guirro é urologista (CRM-SP 158.121, RQE 79.409), formado e residente em Urologia pela Santa Casa de São Paulo, membro da Sociedade Brasileira de Urologia e do corpo clínico do Hospital Albert Einstein. Fundador da TRIUM Clinic, em São Paulo, e criador do canal “Dr. Tiago Guirro, Urologia e Saúde”. Este artigo informa e não substitui a consulta; resultados variam de pessoa pra pessoa.