“Doutor, qual é o melhor jeito de cauterizar?” É a pergunta que eu mais ouço de quem chega ao consultório com uma verruga genital. E a resposta honesta é: depende do que você quer evitar. Marca, dor, número de sessões e chance de a lesão voltar mudam de um método pro outro.

Eu sou o Dr. Tiago Guirro, urologista em São Paulo, e cauterizo lesões de HPV toda semana. Neste artigo eu explico os quatro métodos que existem, como é a sessão, o que esperar da recuperação e por que cauterizar é só o primeiro passo do tratamento.

O que a cauterização faz (e o que ela não faz)

Cauterizar é destruir a lesão visível. A verruga é a parte do HPV que aparece na pele. O vírus, porém, fica nas células em volta, em pontos que o olho não enxerga. Por isso a cauterização resolve a verruga de hoje, e não resolve sozinha o HPV.

Isso importa porque muita gente compara métodos perguntando “qual não deixa voltar”. Nenhum deles impede a recidiva por conta própria. O que muda entre eles é o que você sente, a marca que fica e quantas vezes precisa repetir. A chance de voltar depende do acompanhamento depois, e eu volto nisso no fim.

Os quatro métodos de cauterização de HPV

A eficácia abaixo é a taxa de desaparecimento da lesão tratada, segundo a diretriz europeia de verrugas anogenitais (Lacey e colaboradores, 2013) e as diretrizes do CDC de 2021.

70 a 80%
eficácia por lesão
Ácido tricloroacético (ATA)
aplicado pelo médico

Como é. Gotas de ácido sobre a lesão, em sessões semanais.

Marca. Deixa marca com frequência: o ácido escorre e queima a pele em volta.

Dor. Arde na hora e por algumas horas.

79 a 88%
eficácia por lesão
Crioterapia
nitrogênio líquido

Como é. Congela a lesão com spray ou haste, em sessões repetidas.

Marca. Pode clarear a pele no ponto tratado.

Dor. Queimação forte por horas; bolha nos dias seguintes.

até 94%
eficácia por lesão
Bisturi elétrico
eletrocauterização

Como é. Corrente elétrica queima a lesão, com anestesia local, em uma sessão.

Marca. Pode deixar cicatriz pequena, porque atinge a pele em volta.

Dor. Pouca, com anestesia. Cicatriza em 1 a 2 semanas.

até 94%
eficácia por lesão
Jato de plasma
mesma família do laser

Como é. Energia concentrada na ponta de uma caneta remove só a lesão, com anestesia local, em uma sessão.

Marca. Mínima: a precisão poupa a pele sadia em volta.

Dor. Calor leve. Sem corte, sem sangramento.

Em qualquer método, lesões maiores que 1 cm costumam deixar cicatrizes maiores.

Ácido: quando ainda faz sentido

O ATA é barato e não precisa de anestesia, por isso é comum em serviços públicos e em consultórios sem equipamento. O problema é o controle: o ácido não escolhe onde parar. Acidentes com queimadura da pele em volta são frequentes, e são as marcas que eu mais vejo em quem chega de outro serviço. Funciona melhor em lesões pequenas e poucas.

Crioterapia: eficaz, mas exige repetição

O nitrogênio congela e destrói a lesão. Funciona bem, mas quase sempre precisa de duas a quatro sessões, com bolha e dor entre elas, e pode deixar a pele mais clara no local. É uma boa opção quando não há como fazer anestesia local.

Bisturi elétrico: resolve em uma sessão

Com anestesia local, a corrente elétrica queima a lesão de uma vez. É o método mais usado por urologistas e tem eficácia alta. A limitação é a margem: o calor se espalha pela pele em volta, e em lesões da glande ou do prepúcio isso pode virar cicatriz.

Jato de plasma: o que eu uso no consultório

O plasma é da mesma família do laser. A energia sai concentrada na ponta de uma caneta e atinge um ponto de milímetros. A lesão sai, a pele sadia em volta fica. Na prática isso significa três coisas: dá pra cauterizar na mesma consulta em que eu examino, o paciente sai sem curativo grande e a cicatriz costuma ser mínima. A eficácia é a mesma do bisturi elétrico; a diferença está na marca e no conforto.

Como é a sessão de cauterização com jato de plasma

  1. Peniscopia antes. Com uma lente de aumento e ácido acético eu procuro lesões que o olho não vê. Na maioria dos casos, a verruga que o paciente notou não é a única. Cauterizar só a que aparece é a forma mais comum de “voltar em três meses”.
  2. Anestesia local. Uma picada pequena na base da lesão. Depois disso você não sente dor, só um calor leve.
  3. Cauterização. De 15 a 30 minutos, dependendo do número de lesões. Sem corte e sem sangramento. Se forem muitas lesões, marco uma sessão só pra isso.
  4. Saída. Curativo simples. Você volta pro trabalho no mesmo dia. Quando há dúvida se a lesão é mesmo HPV, eu retiro e mando pra biópsia na mesma consulta.

Recuperação: o que esperar nos dias seguintes

  • Nos primeiros 2 a 3 dias a área fica avermelhada e pode formar uma casquinha fina. Isso é esperado.
  • Higiene com água e sabão neutro, sem esfregar. Pomada só se eu prescrever.
  • Sem relação sexual por 7 a 10 dias, até cicatrizar. Depois disso, com preservativo até a alta.
  • Cicatrização completa em 1 a 2 semanas. Dor forte, pus ou febre não são esperados: se acontecer, me avise.

Por que cauterizar não é tratar o HPV

Em qualquer um dos quatro métodos, uma parte dos pacientes vê a verruga voltar, quase sempre nos primeiros três meses. Não é falha da cauterização. É o que acontece quando o tratamento termina no dia em que a lesão saiu.

Por isso eu trabalho com um protocolo em etapas: peniscopia antes de cauterizar, cauterização com jato de plasma do que aparece, visitas de acompanhamento com nova peniscopia e cauterização de lesões novas se houver, medicação de apoio quando há indicação, e alta. Você sabe desde a primeira consulta em que etapa está e o que vem depois. Escrevi em detalhe sobre isso no artigo HPV recidivante no homem: por que volta e como quebrar o ciclo.

Perguntas frequentes sobre cauterização de HPV

Cauterização de HPV dói?

Com anestesia local, não. Você sente a picada da anestesia e depois um calor leve. Ácido e crioterapia, que costumam ser feitos sem anestesia, ardem ou queimam por algumas horas.

Quantas sessões são necessárias?

Bisturi elétrico e jato de plasma resolvem a lesão em uma sessão. Ácido e crioterapia costumam precisar de duas a quatro. Lesões novas que apareçam depois são tratadas nas visitas de acompanhamento.

Fica cicatriz?

Depende do método e do tamanho da lesão. Ácido e bisturi elétrico atingem a pele em volta e podem marcar. O jato de plasma poupa a pele sadia e costuma deixar marca mínima. Lesões maiores que 1 cm deixam cicatriz maior em qualquer método.

Quanto tempo leva pra cicatrizar?

De 1 a 2 semanas. Sem relação sexual por 7 a 10 dias.

Posso trabalhar depois?

Sim, no mesmo dia. O procedimento é no consultório, com anestesia local, sem internação.

Já cauterizei e voltou. Adianta de novo?

Adianta, desde que o tratamento não pare de novo na primeira sessão. Voltar quase sempre significa que sobrou lesão que o olho não viu ou que não houve acompanhamento. É o caso mais comum no meu consultório.

E se a bolinha não for HPV?

Nem toda bolinha no pênis é HPV. Pode ser glândula normal, pérola peniana ou molusco. A peniscopia responde na hora. Quando há dúvida, retiro e mando pra biópsia na mesma consulta. Veja quando a peniscopia é indicada.

Cauterizar elimina o vírus?

Não. A cauterização elimina a lesão. O vírus é controlado pela sua imunidade ao longo dos meses seguintes, e o acompanhamento serve pra tratar o que aparecer nesse período até a alta.

Quer tirar a verruga esta semana?

Se você já viu a lesão e quer resolver, a página verruga no pênis: cauterização sem corte explica como é a consulta e como agendar. Atendo na Bela Vista, em São Paulo, em frente ao Hospital Sírio-Libanês. Na maioria dos casos a cauterização é feita na mesma consulta.

Se ainda está na dúvida sobre o método, baixe o guia de 2 páginas com os quatro métodos comparados.

Referências

  • Lacey CJN, Woodhall SC, Wikstrom A, Ross J. 2012 European guideline for the management of anogenital warts. J Eur Acad Dermatol Venereol. 2013;27(3):e263-70.
  • Workowski KA, Bachmann LH, et al. Sexually Transmitted Infections Treatment Guidelines, 2021. MMWR Recomm Rep. 2021;70(4):1-187. Seção “Anogenital warts”.
  • Instituto Nacional de Câncer (INCA). HPV e câncer: perguntas mais frequentes. Ministério da Saúde.

Sobre o autor. Dr. Tiago Guirro é urologista (CRM-SP 158.121, RQE 79.409), formado e residente em Urologia pela Santa Casa de São Paulo, membro da Sociedade Brasileira de Urologia e do corpo clínico do Hospital Albert Einstein. Fundador da TRIUM Clinic, em São Paulo, e criador do canal “Dr. Tiago Guirro, Urologia e Saúde”. Este artigo informa e não substitui a consulta; resultados variam de pessoa pra pessoa.


Dr. Tiago Guirro
Dr. Tiago Guirro

Urologista em São Paulo (CRM-SP 158.121, RQE 79.409), formado e residente em Urologia pela Santa Casa de São Paulo e membro da Sociedade Brasileira de Urologia. Fundador da TRIUM Clinic e criador do canal "Dr. Tiago Guirro, Urologia e Saúde".

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