Qual é a melhor cirurgia para próstata aumentada? Essa é provavelmente a pergunta que eu mais escuto no consultório. E a resposta honesta é: depende. Não existe a melhor cirurgia. Existe a melhor cirurgia para o seu caso.

Na prática, a escolha depende de três coisas: o tamanho da sua próstata, o quanto você faz questão de preservar a ejaculação e o quanto você aceita a possibilidade de precisar tratar de novo lá na frente.

Resumindo o que você vai ver neste guia: para próstatas grandes, o HoLEP é hoje o tratamento mais definitivo que existe. Para quem tem próstata pequena ou média e quer preservar a ejaculação, o REZUM é a opção mais interessante. E a RTU, a raspagem clássica, continua sendo uma boa cirurgia, mas com uma chance alta de ejaculação retrógrada, em torno de 70 a 80%.

Eu sou o Dr. Tiago Guirro, urologista em São Paulo (CRM-SP 158.121, RQE 79.409), e essas três conversas acontecem na minha sala toda semana. Vou te mostrar como eu raciocino com os meus pacientes na hora de decidir.

O que cada cirurgia faz na sua próstata

Antes de comparar, você precisa entender uma coisa que muda tudo: a próstata tem uma parte interna, que é a que cresce na hiperplasia benigna, e uma casca externa. Os nervos da ereção passam por fora, colados nessa casca. As cirurgias de hiperplasia mexem só na parte de dentro. É por isso que, ao contrário do que todo mundo ouve por aí, cirurgia de próstata inchada não é sinônimo de impotência. Quem mexe na parte de fora é a cirurgia de câncer de próstata, que é outra história.

Imagine a próstata como uma laranja com um buraquinho no meio, que é o canal por onde a urina passa. O que muda de uma técnica para outra é como a gente tira os gomos que estão apertando esse canal:

RTU (raspagem): a técnica clássica, feita há décadas. A gente entra com uma câmera pelo canal da urina e vai raspando os gomos em pequenas lascas com um bisturi elétrico, mantendo a casca. Funciona bem, mas em próstatas grandes começa a ficar limitada.

HoLEP (enucleação com laser): o princípio é o mesmo, mas em vez de raspar aos poucos, o laser descola o miolo inteiro da casca, como se você tirasse todos os gomos de uma vez só. Esse miolo é levado para a bexiga e triturado por um aparelho chamado morcelador, e sai tudo pelo canal, sem nenhum corte. Por remover todo o tecido que cresce, é o tratamento mais definitivo, inclusive para próstatas muito grandes.

REZUM (vapor d’água): aqui a gente não raspa e não tira nada na hora. Pela mesma câmera, a gente injeta vapor de água dentro dos gomos que estão crescidos. Esse vapor faz o tecido murchar ao longo de duas a três semanas. É o procedimento mais leve dos três e o que mais preserva a ejaculação.

Existem ainda variações como o GreenLight, que vaporiza o tecido com laser, mas na prática o resultado e os efeitos colaterais se parecem com os da RTU, porque o princípio é o mesmo.

RTU x HoLEP x REZUM: a comparação honesta

RTU (raspagem)HoLEP (laser)REZUM (vapor)
Tamanho de próstataPequenas e médias (até ~80 g)Qualquer tamanho, inclusive muito grandesPequenas e médias (~30 a 80 g)
Ejaculação retrógrada70 a 80%70 a 80%Nenhum caso no estudo de 5 anos
Disfunção erétilRara (17% relatam piora, 28% relatam melhora, 55% ficam iguais)Abaixo de 10%Nenhum caso no estudo de 5 anos
Precisa repetir o tratamento?Baixa chanceMenos de 2% em 15 anosBaixa nos primeiros 5 anos, mas é técnica recente
Internação e sonda1 a 2 dias internado, sonda por 2 a 3 diasEm geral 1 diária, sonda costuma sair em menos de 24hProcedimento rápido com sedação, sem internação, sonda por alguns dias

Uma leitura honesta dessa tabela: não existe coluna perfeita. O REZUM ganha disparado em preservação da ejaculação, mas é o mais novo dos três, então a gente ainda não tem dados de 10, 15 anos como tem para as outras técnicas. O HoLEP é o mais definitivo dos três (menos de 2% precisam repetir o tratamento em 15 anos) e o único que resolve bem próstatas muito grandes, mas 7 a 8 em cada 10 pacientes ficam com ejaculação retrógrada, igual à raspagem clássica. E vale repetir: ejaculação retrógrada não é impotência. O paciente tem ereção e orgasmo normais, o sêmen é que vai para a bexiga e sai depois com a urina. Não faz mal nenhum à saúde, mas incomoda alguns homens, e é por isso que essa conversa precisa acontecer antes da cirurgia, não depois.

As 4 perguntas que decidem

Na consulta, quando a cirurgia já está indicada, o meu raciocínio passa por estas quatro perguntas, nesta ordem:

1. Qual é o tamanho da sua próstata?

Essa vem primeiro porque ela elimina opções antes mesmo de falar de preferência. Próstata muito grande, acima de 80 a 100 gramas: o HoLEP vira praticamente o único caminho bem resolvido, porque a RTU fica limitada e o REZUM não é indicado. Próstata pequena ou média: as três técnicas estão na mesa, e aí as próximas perguntas é que decidem.

2. A sua bexiga já está sofrendo?

Se você já travou o xixi e precisou de sonda, se o ultrassom mostra bexiga de esforço (aquela parede espessada de tanto forçar) ou se sobra mais de 100 ml de urina depois que você urina, o problema já passou da próstata. Nesses casos eu dou peso para a desobstrução mais completa e definitiva.

3. O quanto a ejaculação importa para você?

Não existe resposta errada. Homem mais jovem, que quer ter filhos ou que simplesmente faz questão, tem no REZUM o caminho natural. Quem já resolveu essa parte da vida e quer o problema urinário resolvido de vez muitas vezes prefere o HoLEP, sabendo da ejaculação retrógrada. O erro não é escolher A ou B. O erro é descobrir esse efeito depois da cirurgia.

4. Você quer resolver de uma vez ou aceita a chance de retratar?

O HoLEP é o mais definitivo que existe: menos de 2% dos pacientes precisam de novo tratamento em 15 anos. O REZUM tem ótimos dados em 5 anos, mas é uma técnica recente, e seria desonesto da minha parte prometer o que os estudos ainda não mediram.

É o cruzamento dessas quatro respostas que aponta a técnica certa. Por isso você não acha uma resposta única na internet: existe a sua próstata, a sua bexiga e as suas prioridades.

Dois pacientes, duas decisões opostas (e as duas certas)

Seu Antônio, 72 anos. Chegou com uma próstata de 130 gramas, já tinha travado o xixi duas vezes e estava de sonda. O ultrassom mostrava bexiga de esforço. Repare: a primeira pergunta já decidiu o caso sozinha. Com esse tamanho de próstata e a bexiga já sofrendo, o HoLEP era o caminho. Quando eu expliquei a ejaculação retrógrada, ele riu e falou que a preocupação dele era outra: voltar a dormir a noite inteira. Operou, a sonda saiu no dia seguinte, e no retorno a pergunta dele foi por que ninguém tinha indicado isso antes.

Marcelo, 54 anos. Próstata de 55 gramas, jato fraco, acordando duas ou três vezes por noite. O remédio até segurava os sintomas, mas dava tontura e ele não queria depender de comprimido pelo resto da vida. Casado, vida sexual ativa, fez questão absoluta de preservar a ejaculação. Bexiga sem nenhum sinal de sofrimento no ultrassom. Aqui as quatro perguntas apontaram todas para o mesmo lugar: REZUM. Procedimento com sedação, sem internação, e a melhora do jato veio gradualmente ao longo das semanas seguintes, como é esperado nessa técnica.

Mesma doença, dois caminhos opostos, e os dois certos. É isso que eu quero que você leve deste guia: a pergunta não é “qual a melhor cirurgia de próstata”, e sim “qual é a melhor para o meu caso”.

Os casos acima são histórias típicas do consultório, com nomes e detalhes alterados para preservar a privacidade dos pacientes.

O que este guia não substitui

Tudo o que você leu aqui é o raciocínio geral que eu uso no consultório, mas nenhum guia decide cirurgia. A decisão final depende do seu ultrassom, do tamanho e do formato da sua próstata, dos seus exames de função da bexiga e das suas prioridades de vida. E uma ressalva que eu faço questão de repetir: o REZUM é uma técnica recente. Os dados de 5 anos são muito bons, mas a gente ainda não tem o seguimento de 15 anos que já existe para a RTU e o HoLEP. Ser honesto com isso faz parte do tratamento.

Se você quer ver essa explicação em vídeo, com desenho da próstata e tudo, eu gravei sobre isso no meu canal:

E se você já tem diagnóstico de hiperplasia e quer discutir qual técnica faz sentido para o seu caso, é essa conversa que eu faço na consulta. Atendo na TRIUM Clinic, na Bela Vista, em São Paulo.

Fontes

  • Estudo Rezūm II, resultados de 5 anos (McVary e cols., 2021), 136 pacientes tratados
  • Séries de seguimento de longo prazo do HoLEP (retratamento abaixo de 2% em 15 anos)
  • Estudos de função sexual pós-RTU (questionários de função erétil)
  • Diretrizes da Associação Americana de Urologia (AUA) e da Europeia (EAU) para o tratamento cirúrgico da HPB

Autor e revisão clínica: Dr. Tiago Guirro, urologista, CRM-SP 158.121, RQE 79.409. Última revisão: julho de 2026.


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