Paciente entra no consultório, fecha a porta, abaixa o tom de voz: “Doutor, parou de sair esperma na hora do sexo. Voltei a fazer e nada vem. Tô com medo.”

Eu já sei o próximo passo. Pergunto: “Você toma tansulosina, silodosina ou alfuzosina?” Ele responde: “Tomo tansulosina há 8 meses.”

Mistério resolvido. Você tá com ejaculação retrógrada — efeito colateral conhecido dos alfabloqueadores, principalmente da silodosina e da tansulosina.

Eu sou o Dr. Tiago Guirro, urologista em São Paulo, e esse post explica o que tá acontecendo, se é perigoso, e quais as alternativas se você não quer conviver com isso.

O que é ejaculação retrógrada

Em condições normais, durante a ejaculação:

  1. Os vasos deferentes empurram o sêmen pra uretra prostática
  2. O esfíncter interno da bexiga fecha, impedindo o sêmen de subir
  3. Os músculos pélvicos contraem ritmicamente
  4. O sêmen sai pra fora pela uretra

Na ejaculação retrógrada, o esfíncter interno não fecha completamente. O sêmen, em vez de sair pra fora, vai pra dentro da bexiga. O homem tem o orgasmo normalmente, sente as contrações, mas sai pouco ou nenhum líquido. Na próxima vez que urina, sai uma urina turva (mistura de urina + sêmen).

Sensação subjetiva: o orgasmo é geralmente menos intenso. Em algumas pessoas, satisfatório. Em outras, frustrante.

É perigoso?

Pra saúde geral, não. O sêmen que vai pra bexiga é eliminado na próxima micção. Não há acúmulo, nem inflamação, nem dano à bexiga.

Pra fertilidade, sim. Se você quer ter filhos, ejaculação retrógrada é problema — o esperma não chega à parceira. Mas tem solução (vou explicar adiante).

Os remédios que causam ejaculação retrógrada

Alfabloqueadores são os principais:

| Remédio | Risco de ejaculação retrógrada |
|—|—|
| Silodosina | 60-80% |
| Tansulosina | 30-50% |
| Alfuzosina | 5-10% |
| Doxazosina, Terazosina | < 5% |

Outras causas:

  • Cirurgia de próstata (RTUP, HoLEP) — 60-90%
  • Cirurgia abdominal/pélvica extensa
  • Diabetes mellitus com neuropatia autonômica
  • Lesão medular
  • Medicamentos psiquiátricos (alguns antidepressivos, antipsicóticos)

Por isso o primeiro passo é identificar a causa exata.

Soluções, do mais simples ao mais elaborado

1. Troca de medicamento

Se a ejaculação retrógrada veio com silodosina ou tansulosina e te incomoda, vale tentar:

  • Alfuzosina — alfabloqueador mais “uroseletivo”, baixo impacto na ejaculação
  • Tadalafila 5mg diária — trata HPB e disfunção erétil sem causar ejaculação retrógrada
  • Finasterida ou dutasterida — não causam ejaculação retrógrada, mas podem reduzir libido

A troca, sob orientação, costuma resolver o problema em 4-8 semanas.

2. Pseudoefedrina (em casos específicos)

Em pacientes com ejaculação retrógrada de causa neurológica leve, a pseudoefedrina (30-60mg, 1h antes da relação) pode “fechar” parcialmente o esfíncter interno e restaurar ejaculação anterógrada.

Atenção: só sob prescrição. Contraindicado em hipertensos, cardiopatas, hipertireoidismo, glaucoma.

3. Para fertilidade: recuperação espermática urinária

Se você quer engravidar a parceira mesmo com ejaculação retrógrada:

  • Alcaliniza-se a urina (bicarbonato 2-3 dias antes)
  • Coleta o sêmen retrogradado a partir da urina pós-orgasmo
  • Lava e processa os espermatozoides no laboratório
  • Faz inseminação intrauterina ou fertilização in vitro

Funciona em mais de 70% dos casos.

4. Aceitação informada

Pra muitos homens, depois de entender que não é perigoso, não atrapalha o orgasmo, e a parceira raramente percebe a diferença, conviver com a ejaculação retrógrada é uma opção tranquila. Não é “se acomodar” — é decisão informada.

E se a causa foi cirurgia?

Quando a ejaculação retrógrada vem de cirurgia de próstata (RTUP, HoLEP, REZUM), a reversão é mais difícil porque há alteração anatômica permanente. Em alguns casos selecionados:

  • Pseudoefedrina pode ajudar
  • Reconstrução cirúrgica do colo vesical — opção excepcional, raro

Na prática, a maioria dos pacientes pós-cirurgia precisa conviver com a alteração. Por isso é fundamental discutir esse ponto antes da cirurgia.

O REZUM é especial: preserva ejaculação anterógrada em 90-95% dos pacientes (muito melhor que cirurgia tradicional).

Mitos comuns sobre ejaculação retrógrada

“Vou ficar impotente.” Errado. Ejaculação retrógrada não afeta ereção. São funções totalmente independentes.

“Vou ter câncer de bexiga porque o esperma fica lá.” Sem evidência. O sêmen vai pra bexiga, é eliminado na próxima micção, sem inflamação ou risco oncológico.

“O orgasmo vai sumir.” O orgasmo continua. Pode ser sentido como menos intenso por alguns homens, mas continua existindo.

“Não tem volta.” Depende. Causa medicamentosa geralmente reverte com troca. Causa cirúrgica geralmente não. Causa diabética pode melhorar com controle metabólico.

Veja a explicação no vídeo

Quando procurar um urologista

Qualquer mudança no padrão de ejaculação merece consulta — não pra alarme, pra investigação. Em muitos casos, é só ajuste de medicação que resolve em 4-8 semanas. Em outros, é planejamento de fertilidade. Em outros, é aceitação informada.

Mas precisa de avaliação. Não fique especulando sozinho.

Perguntas Frequentes

Ejaculação retrógrada é o mesmo que infertilidade?

É uma causa de infertilidade por relação natural, mas não é “infertilidade absoluta”. Espermatozoides existem e podem ser recuperados pra reprodução assistida em mais de 70% dos casos.

Posso parar a tansulosina por conta pra ver se a ejaculação volta?

Não recomendo. Parar de uma vez pode levar a piora súbita dos sintomas urinários (retenção urinária aguda em casos extremos). Converse com seu urologista — a troca por outro medicamento é simples e segura.

Quanto tempo após parar a tansulosina a ejaculação volta?

Geralmente em 4-8 semanas após descontinuação. Em alguns pacientes, mais rápido (2-4 semanas). Raramente demora mais que isso.

A finasterida também causa ejaculação retrógrada?

Não. A finasterida pode reduzir o volume de ejaculado e diminuir libido em alguns homens, mas não causa ejaculação retrógrada. O líquido ejaculado, quando há, sai pela frente normalmente.

Meu sêmen sai com pouco volume. É ejaculação retrógrada parcial?

Pode ser. Em casos de fechamento parcial do esfíncter interno, parte do sêmen sai e parte vai pra bexiga. Diagnóstico se faz com análise da urina pós-ejaculação (urina pós-orgasmo).

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*Dr. Tiago Guirro é urologista e cirurgião em São Paulo, especialista em procedimentos minimamente invasivos de próstata. Atende na TRIUM Clinic.*


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