Há alguns meses atendi um paciente que tinha feito cirurgia de próstata havia dois anos. Voltou com os sintomas piores do que antes: noctúria de 4x, jato fraquíssimo, urgência. “Doutor, eu operei. Não era pra ter resolvido?”
Era. E não resolveu.
Não por azar. Por um dos 3 erros que mais fazem a cirurgia de próstata falhar — e que eu vejo com frequência suficiente pra escrever esse post.
Eu sou o Dr. Tiago Guirro, urologista em São Paulo, faço procedimentos minimamente invasivos de próstata, e esses são os 3 erros principais que precisam ser evitados na hora de planejar uma cirurgia de HPB.
Erro 1: Indicação errada (operar quem não precisava)
Esse é o mais comum. Homem com sintomas leves, próstata de tamanho moderado, sem complicação, vai direto pra cirurgia porque “o urologista disse que tinha que operar”.
A cirurgia de HPB tem indicações claras:
- Retenção urinária completa (não consegue urinar)
- Falha de tratamento medicamentoso bem conduzido
- Infecções urinárias recorrentes
- Cálculo vesical
- Hematúria recorrente
- Insuficiência renal obstrutiva
Se nenhum desses está presente e os sintomas são leves a moderados, operar é precipitado. Remédio, observação ativa ou procedimento menos invasivo deveriam vir antes.
Paciente que opera sem necessidade corre risco de ejaculação retrógrada, incontinência leve, sangramento, infecção — tudo pra ganho mínimo ou negativo em qualidade de vida.
Erro 2: Técnica inadequada pro tamanho da próstata
Cada tamanho de próstata pede uma técnica diferente.
Próstata pequena (até 30g): RTUP tradicional ou vaporização fazem o trabalho bem.
Próstata média (30-80g): REZUM, GreenLight ou RTUP — todas viáveis, escolha individualizada.
Próstata grande (80-150g): HoLEP (enucleação a laser) ou cirurgia aberta. RTUP simples não dá conta — tempo de ressecção longo, sangramento, remoção incompleta.
Próstata gigante (acima de 150g): HoLEP especializado ou cirurgia robótica/aberta.
Quando a técnica é menor do que a próstata, o tecido residual recresce e os sintomas voltam em 2-3 anos. É como fazer reforma de cozinha deixando parede antiga em pé.
Erro 3: Falta de investigação completa pré-operatória
Sintoma urinário nem sempre vem só da próstata. Antes de operar, é obrigatório descartar outras causas que podem estar causando ou piorando os sintomas:
- Bexiga hiperativa associada — não melhora com cirurgia de próstata. Precisa medicamento específico.
- Estenose de uretra — obstrução no canal, não na próstata. Cirurgia de HPB não resolve.
- Hipocontratilidade vesical — músculo da bexiga fraco. Operar uma próstata aqui pode piorar o quadro (incontinência).
- Divertículos vesicais grandes — podem precisar ser abordados no mesmo ato.
- Cálculos vesicais — precisam sair junto.
- Alterações prostáticas malignas — câncer oculto precisa ser afastado antes.
Investigação adequada inclui: IPSS, flowmetria, ultrassom com resíduo pós-miccional, ressonância de próstata quando PSA altera, exame de urina e urocultura, e em casos específicos, estudo urodinâmico.
Cirurgia sem esse lição de casa é aposta.
Como evitar esses erros
- Procure um urologista que domine múltiplas técnicas. Quem só faz RTUP, tende a indicar RTUP pra tudo. Quem só faz HoLEP, tende ao contrário. O especialista bom tem o ferramental completo.
- Exija investigação pré-operatória completa. Se o plano cirúrgico já está traçado com poucos exames, desconfie.
- Peça segunda opinião. Especialmente em próstatas grandes ou em pacientes com sintomas atípicos.
- Entenda o que cada técnica oferece e o que preserva. Função sexual, continência, tempo de cateter, recuperação.
- Pergunte sobre a taxa de reintervenção do cirurgião. Profissional sério tem resposta.
Veja os detalhes no vídeo
Quando procurar um urologista
Se você já operou próstata e os sintomas voltaram, ou se você tá prestes a operar e ainda tem dúvida, vale MUITO uma segunda opinião. Revisão cirúrgica é possível, mas sempre mais complexa e com resultado menos previsível que a primeira cirurgia bem feita.
Melhor pensar duas vezes antes do que consertar depois.
Perguntas Frequentes
Cirurgia de próstata pode falhar?
Sim. Dependendo da técnica, paciente e indicação, a taxa de reintervenção ou persistência sintomática gira em torno de 5-30% ao longo de 10 anos. Escolha correta de técnica e indicação reduz muito essa taxa.
Depois da cirurgia, posso ter sintomas de volta?
Sim, em alguns casos. Pode acontecer por três razões: tecido prostático remanescente cresceu, bexiga hiperativa associada não tratada, ou cicatriz (contratura) no colo vesical. Cada situação tem abordagem específica.
Qual a melhor cirurgia de próstata em 2026?
Não existe “melhor”. Existe a adequada pro seu caso. HoLEP é excelente pra próstatas grandes. REZUM é ótimo pra preservar função sexual em próstatas pequenas/médias. GreenLight é bom em pacientes anticoagulados. A escolha é personalizada.
O que é revisão de cirurgia de próstata?
É uma nova intervenção em paciente já operado. Pode ser pra retirar tecido residual, abrir contratura do colo vesical, tratar estenose de uretra ou complicações tardias. Cirurgia mais desafiadora que a primeira.
Como saber se meu urologista é bom?
Pergunte: quantas cirurgias por ano faz, em quais técnicas é especializado, qual taxa de reintervenção e qual plano B se a técnica escolhida der complicação. Resposta clara e honesta é sinal de bom cirurgião.
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*Dr. Tiago Guirro é urologista e cirurgião em São Paulo, especialista em procedimentos minimamente invasivos de próstata. Atende na TRIUM Clinic.*